domingo, 2 de setembro de 2012

O motorista daltônico

Jorge* é um cidadão desconhecido, anônimo entre os mais de três mil motoristas de ônibus de Porto Alegre.
E chegou o dia de renovar a habilitação. Jorge trabalhava há alguns poucos anos na mesma empresa e o prazo da CNH havia expirado. O patrão o liberou durante meio turno para providenciar o documento.
Na sala de exame de vistas do CFC, a médica o mandou sentar naquela cadeira ali, longe do quadro com letras de todos os tamanhos. Tapa um olho, tapa outro e o alfabeto não foi empecilho para Jorge. O problema de verdade ocorreu quando a doutora perguntou as cores:
- Que cor é esta?
- Não sei, doutora.
- Como não sabe? E esta?
- Não sei.
- E esta outra?
- Também não sei.
A mulher não escondeu o espanto. Abria a boca, como se fosse falar, e hesitava. Estava escolhendo as palavras para não ser rude com o cliente:
- Mas, mas...Jorge, você não enxerga as cores? Não consegue diferenciar? O que você vê?
- É que eu tenho uma doença, doutora. Eu sou daltônico, enxergo tudo preto e branco.
- Mas se é assim, Jorge, você não pode dirigir. Como é que eu vou aprová-lo no exame se você não enxerga as cores do semáforo?
Jorge se contorceu na cadeira. Pensou rapidamente que aquela mulher de jaleco branco poderia proibi-lo de exercer a profissão que tanto gostava. Franziu a testa. Decidiu reagir com firmeza, mas sem grosseria. Com o dedo em riste, lascou:
- Olha aqui, doutora, se a senhora pegar a minha ficha lá na empresa e eu tiver um acidentezinho sequer em todos estes anos, a senhora pode me tirar a carteira de motorista...Enquanto as sinaleiras tiverem a mesma ordem de cores - vermelho em cima, amarelo no meio e verde embaixo - a senhora não precisa se preocupar comigo, porque eu nunca vou passar no sinal vermelho sem querer.
Depois que o daltônico parou de falar, a doutora ainda ficou alguns breves segundos encarando-o, pensativa. Sabe-se lá o que passava na cabeça daquela mulher. Meio ressabiada, pegou o carimbo, olhou para o atestado, olhou para o Jorge (que assentiu com a cabeça) e o barulho tum-dum ecoou na sala.
- Vejo você daqui a cinco anos, Jorge. Não vai fazer besteira no volante, hein?! Não quero me arrepender.
Até hoje a doutora nunca foi chamada a prestar esclarecimentos. Sinal de que Jorge falou a verdade.
*Nome fictício

Nenhum comentário:

Postar um comentário