A estória ocorreu num prédio público movimentado, com muitos funcionários e visitantes, daqueles em que grandes filas se formam para aguardar a chegada do elevador ao térreo.
E justamente no dia em que o elevador estava mais concorrido e demorado, ouviu-se um pedido quase desesperado de “sobe, sobe”. O aparelho estava cheio, mas não tinha atingido a capacidade máxima de peso. Alguém evitou o fechamento da porta e todos esperaram – curiosos – a dona da voz aflita. Surgiu, ofegante, uma senhora de uns 40 anos de idade e aparente sobrepeso. Ela sorriu, agradeceu, apertou o botão número um e suspirou aliviada. Todos se olharam e ninguém disse uma palavra. Quando a senhora desceu no primeiro andar e a porta se fechou, a mulher que balançava a cabeça em sinal de reprovação e fazia caretas de insatisfação não se conteve. Desandou a falar, como se tivesse sido ofendida:
- Por isso que está gorda daquele jeito, não se dá ao trabalho de subir um lance de escada. E ainda tem coragem de fazer todo mundo esperar por ela. Deveria se envergonhar...
Uns baixaram a cabeça, outros olharam para o painel eletrônico. Alguns se entreolharam e levantaram as sobrancelhas. Fez-se um silêncio constrangedor até que os últimos passageiros descessem no vigésimo andar.
Passados trinta minutos, o aparelho descia igualmente abarrotado. A bordo, a mulher indignada e mais três testemunhas do episódio embaraçoso. Todos ansiosos para chegar ao térreo, quando, após o breve apito, a voz eletrônica avisou: “primeiro andar, desce”. Não é necessário dizer quem estava aguardando a chegada do ascensor. Você precisava ver a cara que fez a mulher revoltada. Bufou e arfou de raiva. A senhora robusta entrou, fazendo os ocupantes se espremerem levemente. Desejou um bom-dia baixinho demonstrando educação, ajeitou-se como pôde junto à porta e esboçou um sorriso tímido por apertar os outros. A mulher perturbada mexeu os braços. Não escondia o descontentamento com a presença da senhora avantajada.
- Dora*, você por aqui? Tudo bem contigo? – perguntou uma amiga da volumosa senhora.
Dora sabia que a etiqueta não permitia conversas pessoais neste ambiente, mas estava tão dolorida que compartilhar o sofrimento seria reconfortante.
- Oi, Lúcia*. Não muito bem, guria. Estou cheia de pontos. Acabei de fazer uma cirurgia e vim encaminhar os papéis.
E as duas amigas saíram saguão afora conversando, enquanto a mulher, antes raivosa, ficou desconcertada. Engoliu em seco e enrubesceu. Sentiu vontade de sumir, desaparecer. As três testemunhas a fulminaram com olhares de condenação e balançaram negativamente a cabeça. Veredicto: culpada.
Quatro pessoas aprenderam uma lição naquele dia. Uma delas da maneira mais vergonhosa.
* Nomes fictícios

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