domingo, 16 de setembro de 2012

Julgamento no elevador

A estória ocorreu num prédio público movimentado, com muitos funcionários e visitantes, daqueles em que grandes filas se formam para aguardar a chegada do elevador ao térreo.
E justamente no dia em que o elevador estava mais concorrido e demorado, ouviu-se um pedido quase desesperado de “sobe, sobe”. O aparelho estava cheio, mas não tinha atingido a capacidade máxima de peso. Alguém evitou o fechamento da porta e todos esperaram – curiosos – a dona da voz aflita. Surgiu, ofegante, uma senhora de uns 40 anos de idade e aparente sobrepeso. Ela sorriu, agradeceu, apertou o botão número um e suspirou aliviada. Todos se olharam e ninguém disse uma palavra. Quando a senhora desceu no primeiro andar e a porta se fechou, a mulher que balançava a cabeça em sinal de reprovação e fazia caretas de insatisfação não se conteve. Desandou a falar, como se tivesse sido ofendida:
- Por isso que está gorda daquele jeito, não se dá ao trabalho de subir um lance de escada. E ainda tem coragem de fazer todo mundo esperar por ela. Deveria se envergonhar...
Uns baixaram a cabeça, outros olharam para o painel eletrônico. Alguns se entreolharam e levantaram as sobrancelhas. Fez-se um silêncio constrangedor até que os últimos passageiros descessem no vigésimo andar.
Passados trinta minutos, o aparelho descia igualmente abarrotado. A bordo, a mulher indignada e mais três testemunhas do episódio embaraçoso. Todos ansiosos para chegar ao térreo, quando, após o breve apito, a voz eletrônica avisou: “primeiro andar, desce”. Não é necessário dizer quem estava aguardando a chegada do ascensor. Você precisava ver a cara que fez a mulher revoltada. Bufou e arfou de raiva.  A senhora robusta entrou, fazendo os ocupantes se espremerem levemente. Desejou um bom-dia baixinho demonstrando educação, ajeitou-se como pôde junto à porta e esboçou um sorriso tímido por apertar os outros. A mulher perturbada mexeu os braços. Não escondia o descontentamento com a presença da senhora avantajada.
- Dora*, você por aqui? Tudo bem contigo? – perguntou uma amiga da volumosa senhora.
Dora sabia que a etiqueta não permitia conversas pessoais neste ambiente, mas estava tão dolorida que compartilhar o sofrimento seria reconfortante.
- Oi, Lúcia*. Não muito bem, guria. Estou cheia de pontos. Acabei de fazer uma cirurgia e vim encaminhar os papéis.
E as duas amigas saíram saguão afora conversando, enquanto a mulher, antes raivosa, ficou desconcertada. Engoliu em seco e enrubesceu. Sentiu vontade de sumir, desaparecer. As três testemunhas a fulminaram com olhares de condenação e balançaram negativamente a cabeça. Veredicto: culpada.
Quatro pessoas aprenderam uma lição naquele dia. Uma delas da maneira mais vergonhosa.
* Nomes fictícios

domingo, 2 de setembro de 2012

O motorista daltônico

Jorge* é um cidadão desconhecido, anônimo entre os mais de três mil motoristas de ônibus de Porto Alegre.
E chegou o dia de renovar a habilitação. Jorge trabalhava há alguns poucos anos na mesma empresa e o prazo da CNH havia expirado. O patrão o liberou durante meio turno para providenciar o documento.
Na sala de exame de vistas do CFC, a médica o mandou sentar naquela cadeira ali, longe do quadro com letras de todos os tamanhos. Tapa um olho, tapa outro e o alfabeto não foi empecilho para Jorge. O problema de verdade ocorreu quando a doutora perguntou as cores:
- Que cor é esta?
- Não sei, doutora.
- Como não sabe? E esta?
- Não sei.
- E esta outra?
- Também não sei.
A mulher não escondeu o espanto. Abria a boca, como se fosse falar, e hesitava. Estava escolhendo as palavras para não ser rude com o cliente:
- Mas, mas...Jorge, você não enxerga as cores? Não consegue diferenciar? O que você vê?
- É que eu tenho uma doença, doutora. Eu sou daltônico, enxergo tudo preto e branco.
- Mas se é assim, Jorge, você não pode dirigir. Como é que eu vou aprová-lo no exame se você não enxerga as cores do semáforo?
Jorge se contorceu na cadeira. Pensou rapidamente que aquela mulher de jaleco branco poderia proibi-lo de exercer a profissão que tanto gostava. Franziu a testa. Decidiu reagir com firmeza, mas sem grosseria. Com o dedo em riste, lascou:
- Olha aqui, doutora, se a senhora pegar a minha ficha lá na empresa e eu tiver um acidentezinho sequer em todos estes anos, a senhora pode me tirar a carteira de motorista...Enquanto as sinaleiras tiverem a mesma ordem de cores - vermelho em cima, amarelo no meio e verde embaixo - a senhora não precisa se preocupar comigo, porque eu nunca vou passar no sinal vermelho sem querer.
Depois que o daltônico parou de falar, a doutora ainda ficou alguns breves segundos encarando-o, pensativa. Sabe-se lá o que passava na cabeça daquela mulher. Meio ressabiada, pegou o carimbo, olhou para o atestado, olhou para o Jorge (que assentiu com a cabeça) e o barulho tum-dum ecoou na sala.
- Vejo você daqui a cinco anos, Jorge. Não vai fazer besteira no volante, hein?! Não quero me arrepender.
Até hoje a doutora nunca foi chamada a prestar esclarecimentos. Sinal de que Jorge falou a verdade.
*Nome fictício